"Cada hora fere, a última mata"

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

3ª vítima: Viúva Negra

Cresço, me formo, e viro um homem.

Por 8 anos havia me esquecido da minha primeira preciosidade. Claro, me livrei dela o mais rápido possivel.... minha 1ª digital.

E quando achava que poderia levar uma vida normal que merecia, sonho novamente.

Sonho com uma rua escura, e luzes passando rapidamente por meus olhos. Um carro passa devagar, e sua luz ofusca meus olhos, sinto então uma pontada. Logo em seguida uma reta sendo desenhada em minhas costas, o objeto passa por entre minhas costelas. Sinto como se rasgasse meu pulmão. Viro para trás e mais uma luz ofusca meus olhos.

Vejo uma luz branca, e estou sentado em uma cadeira... de rodas. Há um homem em minha frente. Morto. Em sua mão há um copo, o mesmo que está em minhas mãos. De sua boca escorre um liquido vermelho vivo, como sangue.

Acordo. Sinto gosto de sangue em minha boca. São 4:20 da manhã, escura como a noite. Respiro profundamente, como quem respira depois de um pesadelo. E volto para meu sono, agora sem a compania dos sonhos.

Hoje, sou um empresário, trabalho na bolsa de valores. É um trabalho digno, que não me dá tempo para lembranças. Os grandes seriais-killers eram médicos, professores, e todas as profissões "sob qualquer suspeita". Se eu trabalhasse na policia ficharia todos os empresários na bolsa de valores. Não digo isso pelo fato de ser um. Mas quando se trabalha do modo que trabalhamos, você ganha uma boa chance de se tornar como eu.

Claro, sem os sonhos.

Acordo novamente, dessa vez, atrasado. Me visto rapidamente. Pego um pacote de qualquer coisa que aparente matar minha fome. Dou um beijo em minha mulher e em meus dois filhos.

Oh, como sou péssimo em contar minha historia. Sim, me casei. Conheci Julia em uma festa da faculdade, ela estava cursando engenharia. Namorava um veterano da Bela Artes. Logo duvidei da sexualidade do veterano, e ri de mim mesmo. Como podia ser tão preconceituoso? Por ser apenas um pensamento, ainda era saudável pensar aquilo. Enquanto era um pensamento era seguro, e fonte de risos reprimidos.

Havia me esquecido da irônia do destino.
Mais o destino não havia se esquecido de mim, e nem de como ser irônico.

Conversando com alguns amigos de outros cursos comento de forma cômica do que pensei sobre o tal veterano.

E esqueci que não tinha olhos nas costas.

O tal veterano estava às minhas costas, e num ato de pura sorte e reflexo desvio de um golpe seu. Por um momento o monstro dentro de mim desperta. Lembro do suave toque do sangue em meu rosto. Avanço tal qual o monstro que habita meu coração sobre minha 2ª vítima. O derubo com um golpe, mas a persistência do veterano o faz levantar novamente. Me preparo para o segundo e final golpe, mas sou barrado por um olhar. O olhar de Julia acalma o monstro dentro de mim. Paro por um instante e me afundo em seus olhos. Sinto uma pancada forte em meu rosto. E vejo por pequenos segundos o olhar triste de Julia.

Acordo. Estava deitado no gramado, estendido. Não vejo meus amigos, vejo, para minha tenra surpresa, Julia. Seus olhos cheio de um carinho tão confortavel fitam os meus. Ela senta ao meu lado, e critica meu comentario tão preconceituoso.

E ri.

Nós tornamos grandes amigos, e depois grandes amantes. Me lembro de todas as tardes em que passamos juntos. E do vazio que sentia. Sentia que podia ama-la, mais era como se eu estivesse desconectado dos meus sentimentos. Ela espantou o monstro dentro de mim. E eu o julguei morto.

Dentro de pouco tempo estavamos noivos, para a felicidade de meu velho pai. Acreditava que nunca mais veria um sorriso em seus lábios desde que minha irmã mais velha morreu em um acidente de carro. Meu irmão mais novo, Lucas havia se tornado um médico, seu bom coração o fazia querer abraçar o mundo, e evitar mortes como a de nossa irmã.

Entro no carro e vou para o meu árduo trabalho. Tivemos uma bom dia de negócios. E mais uma dose de stress. Nada com que não tenha me acustamado. Mais não sabia que meu futuro hobby poderia me ajudar tanto a relaxar.

Saio do trabalho e vou beber com alguns amigos, nada além de uma ou duas doses de vodka. Demoro um pouco mais para sair. Acabo exagerando um pouco na bebida, e não gostaria de trazer mais tristeza para minha familia.

Estou sobrio novamente, pego meu caro e me dirijo à minha casa. No caminho olho para a calçada e vejo uma prostituta e logo atrás um homem caminhando decididamente em direção a mulher. Diminuo a velocidade. Penso por um instante e volto a andar normalmente. Me vem novamente a sensação que senti a 8 anos. Paro o carro. Ando em direção ao homem. Sem muitos movimentos acerto sua cabeça com força. Seguro o corpo para que não caia no chão. Arrasto o homem paro o carro. Meu coração dispara, entro em frênesi e sinto retorno triunfante do monstro dentro de mim.

2ª vitima: Ladrão de digitais.

Hoje em dia penso em como cheguei aqui. Por que agi desse jeito todo esse tempo...

Não consegui entender porque a imagem daquela familia não saia de minha cabeça. Todos tão alegres, tão unidos. Sorrindo para todos, gratuitamente.
Se não tivesse prendido meu pensamento a aquela familia, não seria o que sou hoje.

Por não conseguir tira-los de minha cabeça, procurei qualquer informação sobre eles. Discrição foi uma coisa que não aprendi, ganhei. Se não tivesse procurado informações sobre aquela familia não descobriria que o sorriso do pai dessa familia era movido a álcool, que o sorriso da mãe era movido a tristeza, e o sorriso dos garotos à inocência.

Lembrei do acidente de carro, das 4 vitimas fatais. Imagino que se não tivesse sido criado para ser justo, não me sentiria com tanto ódio daquele homem. Esse mesmo ódio me fez segui-lo a noite, depois que saiu bebâdo do bar, era sua rotina diária. Apostava contra quem quisesse que ele iria bater nos filhos e na mulher, como de costume.

Mas dessa vez eu estava preparado.

Em minha infância lembro de tantas aulas de defesa pessoal e artes marciais, que não entendo como não era um brutamontes valentão. Além do mais, em grandes colégios aprendia-se esgrima.
Achava tão desnecessário, mas tinha que fazer. O mais engraçado era que eu, por fazer diversas artes-marciais, era o melhor da turma. E não tinha orgulho disso.

Eis uma irônia do destino.

Ao perseguir aquele homem meu coração batia em frênesi. A emoção, a adrenalina que sentia, não podia ser comparada a nada. Não entendia o porque estava fazendo aquilo...
Apenas agia...mais nada.Tinha um equipamento, digamos...precário. Tinha apenas uma mochila, uma blusa de frio, uma faca de cozinha recém-afiada, e mais nada.

Em um segundo, vacilo, e me exponho nas sombras. Hora de agir. Não há mais retorno.

Apenas um golpe, limpo, lindo, perfeito. Um fino fio de sangue jorra, e em menos de um segundo, o fino fio se torna uma torneira aberta, de águas vermelhas. Esse sangue me acerta o rosto e pulo para trás.

Não entendia a arte de matar, por isso me desespero.

Penso, ainda em desespero e frênesi que devia me livrar das provas que podiam me encriminar, mas como?
Olho para seus dedos, e me lembro de quando tirei minha carteira de identidade. Pensamento estranho para aquele momento, pensei.

E novamente o destino me cobre, com seu manto de irônia.

E como em um estalo, entendo que devia me livrar das digitais do homem.

Ainda me lembro de quão bruto e inexperiente fui com minhas primeiras preciosidades, as digitais. Retiro sua carteira, com as mãos enroladas em minha camisa, cheia de sangue, do meu novo amigo. Agora meu peito pulsava em agônia. E lágrimas escorriam em meu rosto. Por que matei? E se o sonho não fosse uma premonição?
Como poderia saber? Brincar de Deus pode não ser uma brincadeira saudável.

Como era inocente demais, e estava em desespero, me esqueço que seu rosto podia ser reconhecido. Como pude me esquever de um detalhe como aquele? Jogo o corpo em qualquer lugar. Coloco a camisa dentro de minha mochila, junto com a faca e visto minha blusa de frio. Qualquer périto da policia iria se sentir feliz com aquela camisa. Minha camisa, o sangue da minha vítima...

O destino me favorece.

Sempre.

Chego em minha casa, e espero até de madrugada para lavar minha camisa. Coloco a faca no seu devido lugar. Uma faca tão rústica, tão feia, tão afiada.

E durante dias não durmo.
Durante anos não sonho.

O homem, do qual não quis saber o nome foi encontrado. Por sorte ele devia muito dinheiro a alguns caras. Longe de qualquer suspeita volto a viver de novo. E me esqueço, pois não há ninguem para me lembrar, da sensação de ter uma vida em minhas mãos, e sangue no meu rosto.