Chove.
O sono não existe mais.
Noites brancas.
O minha maior aflição é por não sentir remorso. Sinto que faria novamente, que deixaria o monstro me dominar. Mais uma noite em claro. Julia dorme seu merecido sono. Ela pode sonhar, eu não.
O lado bom de não se dormir é pensar, e pensar muito, sobre tudo. Por não ser uma pessoa de muitas palavras sempre pensei muito, sempre observei muito. Me apaixonei pelo comportamento humano. Uma paixão irônica.
O monstro não. O monstro era apaixonado pela adrenalina, pela falta de ar, coração disparado.
A chuva piora.
O monstro fala comigo, arrisca-se perto do olhar de Julia. Era necessário.
O monstro me pede um rosto. Pede identidade. Não sei como posso lhe dar um rosto. O monstro ainda me respeita. Temo pelo dia que isso não acontecer mais. Encontro uma solução.
Uma máscara.
Sua identidade é um cutelo. Ele se sente agredecido por ter uma identidade e se recolhe dentro de mim. Uma máscara, perfeito. Um cutelo, sim.. um cutelo. A identidade do monstro. Não entendo o por que de um cutelo. Tantas armas mais mortais, mais crúeis. O monstro está mais feliz. E eu mais calmo.
Consigo dormir.
Preferia não ter acordado.
Duas semanas depois uma pagina no jornal me assuta, e me deixa contente.
"Homem é encontrado morto em obra abandonada.
Um homem foi encontrado morto, sem as pontas dos dedos. Péritos da polícia, após vasculhar toda área dizem que a causa da morte foi corte profundo na garganta, na parte inferior. Os peritos dizem ainda não terem reconhecido a vítima. Mas adiantam que o assassinato não foi comum.
Segundo eles o Ladrão de Digitais (apelido dado pela péricia) agiu 8 anos atrás da mesma forma. Teme-se que seja um novo serial-killer.
Não foi encontrada nenhuma pista na cena do crime, apenas a arma: um cutelo..."
Um sorriso de satisfação ao ler as palavras se esboça em minha face, e na do monstro também. Mais logo é apagado quando leio a próxima noticia:
"Mulher vítima de tentativa de assassinato sai do hospital.
Vítima de uma tentativa de estrupo, mulher recebe alta do hospital hoje. Carolina de Freitas foi encontrada mortalmente ferida a duas semanas atrás no centro. Carolina perdeu movimento das pernas..."
Meu 1º erro.
Matei o homem errado.
O monstro ri de mim. Espero o remorso, mas ele não vem. Sei que devo corrigir meu erro. Devo matar novamente. Minha 3ª vítima. Agora sem erros.
Com tanto estardalhaço dos jornais a procura do novo assassino, foi fácil chegar as informações de minha vítima.
Descubro onde mora, o que faz, o que já fez. O monstro está ansioso. Eu também.
Deixo o monstro agir. Dou a ele a máscara que pediu. A identidade que pediu. E o deixo agir. Ele é mais impiedoso que eu. Mia frio, calculista.
Encontro minha vítima. Erro novamente. Chego tarde de mais. Encontro-a em sua cadeira de rodas com uma taça em mãos. E um homem morto a sua frente. Visto minha máscara e liberto o monstro. Ele passa pelas costas da mulher sem se deixar perceber. Corta sua garganta com um único e lindo movimento. Um segundo de agônia. Agora as digitais. 10 cortes de cutelo, 10 digitais. Guardo-as com carinho.
Alterar a cena do crime seria fácil. Mas o monstro prefere mostrar que esteve ali. Crava o cutelo na mesa e se vai.
"Cada hora fere, a última mata"
domingo, 19 de outubro de 2008
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