"Cada hora fere, a última mata"

segunda-feira, 8 de junho de 2009

8ª vítima: Mentiras, mentiras e mentiras.

Às vezes eu penso sobre a morte.

Às vezes.

Não sobre a morte de outras pessoas, e sim sobre a minha. Por mim é muito fácil tirar a vida de alguém, sem pensar. Por mim, eu tiraria a vida de todos que podem causar dor a outras pessoas. Eu tiro a vida de quem não a merece. Será que eu mereço a minha?
Se houvesse outra pessoa como eu no mundo, eu seria sua vitima?

Creio que sim.
Vou tentar deixar este devaneio para trás e continuar minha historia.

(Minha historia...?)




Então eu acho o outro homem. Bom, logo depois que ele já havia atirado em minha perna. Sem ao menos mirar, atiro o cutelo em sua direção.

Erro.
(nota mental, mirar na próxima vez)

Parto em sua direção, ele tenta atirar. Chego antes. Facilmente o domino. Um movimento rápido e quebro seu pescoço.

Meu sangue esfria e minha cabeça também. Oh meu deus, eu matei um homem com minhas próprias mãos, senti seu corpo desfalecer sobre mim, acompanhei seu ultimo movimento, em direção ao chão.

Agora este homem está na minha frente, seu pescoço está em um angulo estranho. Algo me incomoda por causa disso. Pretendo ser simples com este sentimento e apenas coloco seu pescoço no angulo correto, para uma pessoa morta.

Minha perna doe, muito. De repente me lembro o que estava fazendo aqui.
Os olhos dela estavam opacos, eu sentia o medo dela espalhando-se pelo quarto, como uma nuvem. Não deixo que este medo faça parte de mim. Apenas me levanto, vou em sua direção, olho nos seus olhos.

Ela pergunta se eu vou matá-la, pede, implora, chora para que eu não a mate. Toco em seu rosto e digo, lenta e enfaticamente, que ela está a salvo agora. Dou-lhe as costas e saio, mancando. Procuro por um telefone na casa, acho que vi um na cozinha.

Bingo! Hora de ligar para a pólicia. Não. Preciso pensar em mim por agora. Hora de ligar para meu irmão. Hora de pensar em mil desculpas para uma bala na perna.

...péssima idéia em ligar daquela casa. Tenho apenas que ligar para a policia e sair o mais rápido possível da casa.

Depois que liguei para a policia, ir até meu carro foi um suplicio. Não fazer barulho e não chamar atenção torna este suplicio um martírio. Entro no meu carro, e enfim ligo para meu irmão. Qual minha desculpa? Assalto. Agora eu sou a vitima de alguém. É difícil enganar meu irmão assim, e dar os detalhes quase foi minha cova. Creio que dramatizar tanto o fez pensar que era muito urgente...
(pra mim é.)

Para estancar o sangramento ele diz que eu tenho que fazer pressão no local. Nada que eu não esteja fazendo desde quando sai da casa. Ele pede para dizer onde estou e diz que pode me buscar, que vai me buscar.

(-Não.)

Peço apenas que me diga onde tenho que ir. Digo que tenho medo que o assaltante venha atrás de mim, que preciso despistá-lo. As únicas pessoas que tenho que despistar são os policiais.

Ele acredita. Estou ficando bom demais em mentir.

Há essa hora Julia deve estar preocupada comigo. Preciso ligar para ela. Nada que uma desculpa sobre um machucado bobo na perna não cuide. E é isso que eu faço. Ligo e digo que me machuquei saindo do trabalho.

(Uma mesa baixa pode causar muitos acidentes.)

Já disse que estou ficando muito bom em mentir?









Isso está começando a me preocupar.