"Cada hora fere, a última mata"

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

2ª vitima: Ladrão de digitais.

Hoje em dia penso em como cheguei aqui. Por que agi desse jeito todo esse tempo...

Não consegui entender porque a imagem daquela familia não saia de minha cabeça. Todos tão alegres, tão unidos. Sorrindo para todos, gratuitamente.
Se não tivesse prendido meu pensamento a aquela familia, não seria o que sou hoje.

Por não conseguir tira-los de minha cabeça, procurei qualquer informação sobre eles. Discrição foi uma coisa que não aprendi, ganhei. Se não tivesse procurado informações sobre aquela familia não descobriria que o sorriso do pai dessa familia era movido a álcool, que o sorriso da mãe era movido a tristeza, e o sorriso dos garotos à inocência.

Lembrei do acidente de carro, das 4 vitimas fatais. Imagino que se não tivesse sido criado para ser justo, não me sentiria com tanto ódio daquele homem. Esse mesmo ódio me fez segui-lo a noite, depois que saiu bebâdo do bar, era sua rotina diária. Apostava contra quem quisesse que ele iria bater nos filhos e na mulher, como de costume.

Mas dessa vez eu estava preparado.

Em minha infância lembro de tantas aulas de defesa pessoal e artes marciais, que não entendo como não era um brutamontes valentão. Além do mais, em grandes colégios aprendia-se esgrima.
Achava tão desnecessário, mas tinha que fazer. O mais engraçado era que eu, por fazer diversas artes-marciais, era o melhor da turma. E não tinha orgulho disso.

Eis uma irônia do destino.

Ao perseguir aquele homem meu coração batia em frênesi. A emoção, a adrenalina que sentia, não podia ser comparada a nada. Não entendia o porque estava fazendo aquilo...
Apenas agia...mais nada.Tinha um equipamento, digamos...precário. Tinha apenas uma mochila, uma blusa de frio, uma faca de cozinha recém-afiada, e mais nada.

Em um segundo, vacilo, e me exponho nas sombras. Hora de agir. Não há mais retorno.

Apenas um golpe, limpo, lindo, perfeito. Um fino fio de sangue jorra, e em menos de um segundo, o fino fio se torna uma torneira aberta, de águas vermelhas. Esse sangue me acerta o rosto e pulo para trás.

Não entendia a arte de matar, por isso me desespero.

Penso, ainda em desespero e frênesi que devia me livrar das provas que podiam me encriminar, mas como?
Olho para seus dedos, e me lembro de quando tirei minha carteira de identidade. Pensamento estranho para aquele momento, pensei.

E novamente o destino me cobre, com seu manto de irônia.

E como em um estalo, entendo que devia me livrar das digitais do homem.

Ainda me lembro de quão bruto e inexperiente fui com minhas primeiras preciosidades, as digitais. Retiro sua carteira, com as mãos enroladas em minha camisa, cheia de sangue, do meu novo amigo. Agora meu peito pulsava em agônia. E lágrimas escorriam em meu rosto. Por que matei? E se o sonho não fosse uma premonição?
Como poderia saber? Brincar de Deus pode não ser uma brincadeira saudável.

Como era inocente demais, e estava em desespero, me esqueço que seu rosto podia ser reconhecido. Como pude me esquever de um detalhe como aquele? Jogo o corpo em qualquer lugar. Coloco a camisa dentro de minha mochila, junto com a faca e visto minha blusa de frio. Qualquer périto da policia iria se sentir feliz com aquela camisa. Minha camisa, o sangue da minha vítima...

O destino me favorece.

Sempre.

Chego em minha casa, e espero até de madrugada para lavar minha camisa. Coloco a faca no seu devido lugar. Uma faca tão rústica, tão feia, tão afiada.

E durante dias não durmo.
Durante anos não sonho.

O homem, do qual não quis saber o nome foi encontrado. Por sorte ele devia muito dinheiro a alguns caras. Longe de qualquer suspeita volto a viver de novo. E me esqueço, pois não há ninguem para me lembrar, da sensação de ter uma vida em minhas mãos, e sangue no meu rosto.